Congreso de Antropología Feminista

Temática - S27. Etnografias feministas e políticas de resistência: Governança reprodutiva e seus desdobramentos

  • Rozeli Maria Porto (Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN – Brasil) 
  • Susana    Rostagnol    (Universidad    de    la    República/UDELAR    –    Uruguai) 
  • Marion Teodósio Quadros (Universidade Federal de Pernambuco/UFPE – Brasil)

Na América Latina, observa-se um recrudescimento de perspectivas moralizantes que, disseminadas pelos mais diversos espaços sociais, têm incidido sobre a vida sexual e reprodutiva e impactado diretamente os direitos das mulheres, meninas e pessoas que gestam. Em meio a uma conjuntura geopolítica marcada por acirradas disputas políticas e ideológicas, os avanços conquistados nas últimas décadas sofrem retrocessos e desmontes sob a pressão de grupos neoconservadores e neoliberais, comprometendo políticas públicas e o reconhecimento de direitos sexuais e reprodutivos. As reflexões em torno da saúde sexual e reprodutiva, em suas múltiplas expressões de gênero e sexualidade, têm instigado pesquisadoras e pesquisadores a analisarem o entrecruzamento desses direitos com diferentes marcadores sociais, evidenciando novas formas de desigualdade e exclusão. Nesse contexto, o conceito de governança reprodutiva elaborado pelas antropólogas feministas Lynn Morgan e Elizabeth Roberts, tem se mostrado uma ferramenta analítica relevante para compreender as racionalidades políticas em transformação. As autoras definem esse conceito como os “mecanismos pelos quais diferentes configurações históricas de atores — incluindo instituições estatais, religiosas e financeiras internacionais, ONGs e movimentos sociais — utilizam controles legislativos, induções econômicas, injunções morais, coerção direta e incitamentos éticos para produzir, monitorar e controlar comportamentos reprodutivos e práticas populacionais”. A partir de pesquisas etnográficas realizadas em diferentes países latino-americanos e em diálogo com estudos internacionais, observa-se que tais processos se manifestam de maneira complexa e articulada. Destacam-se a disseminação de uma ideologia familista; a apropriação e ressignificação de pautas como o enfrentamento da violência de gênero e a defesa dos direitos humanos; o crescimento de movimentos autodenominados antifeministas; e o resgate de modelos tradicionais de feminilidades, masculinidades e conjugalidades tradicionais, dentre outros. Esses movimentos se inserem em um cenário mais amplo de conservadorismos e ofensivas antigênero, que buscam redefinir o papel das mulheres e das pessoas dissidentes de gênero na sociedade. Como consequência, direitos minimamente conquistados, como o acesso ao aborto legal, ao parto humanizado, à gestação por substituição, à laqueadura voluntária, ao atendimento de vítimas de violência de gênero e à saúde integral de travestis e transexuais, encontram-se cada vez mais ameaçados. Esses ataques não apenas fragilizam políticas públicas, mas também produzem novos constrangimentos morais e institucionais que impactam a autonomia corporal e reprodutiva. Adotando uma perspectiva teórico-metodológica da antropologia feminista, este simpósio propõe reunir e articular pesquisas etnográficas que mapeiem esses processos de transformação, identifiquem os principais impasses contextuais e problematizem os desafios implicados na produção de pesquisas etnográficas em contextos hostis em face a alteridades incômodas. Pretende-se reunir expositoras de diferentes contextos países que têm enfrentado este conjunto de questões em suas pesquisas e ativismos, com vistas à constituição de redes transnacionais de produção de conhecimento e de solidariedade, para o fortalecimento de uma antropologia feminista comprometida com a defesa dos direitos sexuais e reprodutivos, com a crítica às racionalidades conservadoras emergentes e com a promoção de uma ciência social engajada na justiça de gênero e na democracia.

Enviar una propuesta

Colaboradores:

Aj_tgn_col_lat

 

PORTDETARRAGONA_JPG_COLOR_LOGO

dafits Logo ITA bo logo facultat de lletres